quarta-feira, 20 de maio de 2009

A «menina» do Quitexe que foi ao cinema...

Clube Recreativo do Quitexe

O Clube Recreativo do Quitexe (foto) ficava na estrada do café e foi pouso de exibição de alguns filmes, por iniciativa do Gabinete de Acção Psicológica e para espectadores militares e civis. Já não tenho uma memória nítida da sala, mas é seguro que tinha balcão.
Uma noite, aí pelos idos de Dezembro de 2004, passou por lá fita que ninguém queria perder: «Eusébio». O filme do imortal futebolista português de Moçambique que, ao tempo, embora já algo distante do fulgor das suas enormes potencialidades, estava em apogeu de fama. Ainda hoje!!!
Andávamos nós por ali na nossa brincadeira de travestis quando o Machado, que era homem para muitos humores, não teve outra coisa que não desafiar-me: «Não és homem nem és nada se não fores assim ao cinema!...». E eu fui!
Aperaltei-me para a soirée, com os melhores encantos que pude, sem batons e máscaras, ou lábios pintados, mas muito feminino!!! E, valha a verdade, algo envergonhadote e até com medo de alguma atitude dos regulamentos militares. Mas lá avancei na noite para a sala de cinema, já de bilhete comprado!
O poiso era no balcão, e com o jeito feminino que Deus não me deu, lá me fui saracoteando, dando à anca e compondo os seios postiços que pendurava dos ombros.
«Mas quem é esta gaja?!», ouvia-se perguntar.
Nunca por ali se tinha posto o olho em tal mulheraço!...
Mostrava a fita os golos do «pantera negra» e gritava o povo civil e militar «Eusébio, Eusébio...», quando, ainda antes do intervalo, o vizinho do lado direito, um alferes miliciano acidentalmente no Quitexe, começou com avanços que eu fui rejeitando como pude. Às tantas, estava já com a mão pousada no meu joelho direito, agasalhando-se no escuro da noite do cinema. Fui-o sacudindo, enquanto pude resistir ao gargalhar da situação, até que não aguentei mais e abalei da sala de cinema, em passo rápido, fugindo rua abaixo, até ao meu quarto.
Mas fui visto por outro oficial, este do quadro, homem dos seus 50 e tal anos, que passeava a sua noite na avenida do Quitexe. E eu, que tinha que passar ao alcance dos olhos dele, corri, corri..., até que entrei no quarto, rapidamente me desfazendo das roupas femininas - aliás, facéis de arrumar!
Logo bateram à porta, de forma sôfrega e apressada: «Abra a porta, abra a porta...", gritava o oficial. Era ele. Abri, assim que pude, já em calções civis!
«Onde é que ela está?», perguntou ele, de olhos esgaseados e desconfiado.
«Ela, mas ela quem?!...», retorqui eu, já a morder-me de gozo, com o insólito da situação.
«A mulher, a mulher... onde é que ela está?...», insistiu o bom do oficial do quadro, a espreitar debaixo das camas e nos dois únicos armários do quarto, o meu e o do Xico Neto, sem dar por mulher nenhuma. E que, naturalmente, nunca encontrou.
A coisa era estranha para ele: então tinha ali entrado um mulher, vira-a ele com olhos que a terra lhe haveria de comer, e não a achava?!!! E nem ela poderia ter saído pela janela, que estava vedada com a rede mosquiteira. Como é que podia ser?
«Não está aqui mulher nenhuma, meu... », dizia eu.
E vasculhava o homem, sem a encontrar, o que lhe parecia de todo impossível. Ele tinha-a visto entrar, tinha de estar ali.
Ainda hoje julgo saber que o bom do oficial nunca desfez tal mistério.
- OFICIAIS: Sei bem os nomes dos dois oficiais em causa. Não cito o nomes, por razões óbvias e para evitar constrangimentos.
- MACHADO. Manuel Afonso Machado, furriel miliciano mecânico de armamento, natural de Covelo do Gerez (Montalegre) e residente em Braga.

terça-feira, 19 de maio de 2009

As cassetes de amor e juras para as namoradas de Portugal...

Furriéis Neto e Viegas no seu quarto do Quitexe
Os tempos mortos do Quitexe, que os havia!!!..., eram muitas vezes ocupados em gravações, chamávamos-lhe nós programas de rádio, gravações fartas de apaixonadas declarações de amor!
Eram declarações a metro, feitas de palavras sem fim e quentes, muito quentes, gravadas em fitas magnéticas embaladas em cassetes e que os Correios traziam para Portugal, embrulhadas em papel grávido de saudades - mas sem arder nas labaredas das paixões que medravam no calor angolano.
O meu quarto, que era o quarto do Xico Neto, era uma espécie de fórum dos cavaleiros que jornadeavam pelo Quitexe. Era um espaço de culto! Por lá cabiam todos! E alguns por lá iam, para fazermos as tais gravações!
E o que era isso, isso de gravações? Pois, com um velho gira-disco de agulha e um rádio-gravador, ou um gravador com leitura de cassetes e outro que as gravava, punhamo-nos para ali a debitar promessas e juras de amor às namoradas e mulheres que, no «puto», eram razão de afectos mais íntimos. Não por mim, fiquem todos avisados, que nem namorada tinha! Mas por outros que, roídos de saudades das namoradas, não sabiam como as matar (as saudades!, bem entendido!) - para além de lhes mandarem camiões de vagos e volúveis aerogramas, cheios de corações atravessados de setas de Cupido!
Bom, então era assim o guião: escolhiam-se os discos mais românticos e adequados à mensagem que se ia gravar. A tua namorada é isto, é aquilo, faz assim, faz assado, gosta disto e do quê, qual é o ponto fraco dela?!!! Ai ela é isso? Então, era aí que nós lhe «tocávamos» ao sentimento, em palavras quentes, volupiosas, lavradas com rigor e no momento exacto, enquanto se baixava e se subia o som na «mesa de mistura» improvisada.
As raparigas, com a cassete no regaço, corriam apressadas e em ânsias para irem ouvir a voz dos seus amados, nos seus segredos de quarto e atravesseirando-se de afectos, como se ali estivesse o dono daquela voz - o seu amor que estava na guerra!! Choravam de emoção e saudade, de alegria e de paixão!!! Era só amor!!!
Eu, que era irreverentemente atrevidote e meio lavrador de palavras, debitava prosa e versos de embalar corações, minha esta e minha aquela - às vezes com palavreado de fazer chorar as pedras das calçadas... - e lá "obrigava" os rapazes a confessar as suas perdas emocionais e a confirmar amores e juras, dizendo quantas vezes o que nem lhes passava pela cabeça.
As juras de amor eram tais e de tal maneira que, ouvidas em Portugal pelas cachopas, lhes provocavam verdadeiros apertos de coração, autênticos delírios vivos e volúpias que não se contam! Ai não!!!

Os rapazolas da foto são, somos, somos o Neto e eu: «Em directo, dos estúdios da Ráááááádio Quitexe, directamente para o Bééééééééco, em Águeeeeeeeda!... Para a Ni!!!!...».
Ainda há dias nos fartámos de rir, recapitulando estes dias radiofónicos dos jovens cavaleiros do norte angolano. E assim se iam passando os dias do Quitexe! A radiogravar promessas de namorados!!!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A estrada do café e o incêndio na arrecadação

O incêndio na arrecadação de material do Quitexe.
Foto de Francisco Neto, clicar para ampliar.
Entrada do Quitexe, do lado de Carmona .
Foto de Luís Fernando, jornalista angolano. Clicar, para ampliar.

O Quitexe era isto, da entrada de Carmona. À frente, logo à esquerda da casa verde, cortava-se para avenida principal (nova) e nessa transversal ficava a enfermaria militar. Os serviços militares, à excepção da quinta casa do lado esquerdo (a seguir à cor de rosa), funcionavam todos na avenida.
A ajuda de José Oliveira, do BCAV 1917 - que pelo Quitexe respirou saudades e pólvora entre 1967 e 1969 - permite-nos recordar a padaria civil do Tibúrcio, e por aí fora. Este arruamento correspondia à estrada que ligava Carmona a Luanda - a chamada estrada do café.
Agora, a história: a 17 de Janeiro de 1975 deflagrou um incêndio na casa a seguir à cor de rosa e que era onde estava instalada a arrecadação de material de aquartelamento e algumas munições e, se bem recordo, os quartos dos alferes milicianos. Foi um susto de todo o tamanho!
As labaredas celeremente «comeram» tudo o que lhe apareceu pela frente, sem dar muito tempo a que se deixassem combater. E havia a iminência do estouro de munições. Um perigo! Mortal!!! Apesar da pronta intervenção dos militares, a verdade é que, sem água que chegasse e sem bombeiros, não foi possível evitar a destruição do edifício.
Supostamente originado num curto circuito, o incêndio, vá lá..., ainda deu tempo a que os pertences pessoais dos militares fossem salvos, guardando-se da noite a imagem de camas, malas, roupa e outros equipamentos serem levados e pousados na rua, apressadamente! E a chegada, algo caricatural, de um carro de bombeiros de Carmona, que já nada vieram fazer. Não houve quaisquer danos pessoais.
A foto, a preto e branco (captada pelo furriel Neto) mostra dois militares, no rescaldo do fogo: um soldado (sentado) e o capitão Oliveira, à direita, de pé!
- CAPITÃO OLIVEIRA. António Martins de Oliveira, comandante da CCS da BCAV 8423. Natural de Viseu, residia em Ovar.

domingo, 17 de maio de 2009

O Bar do Rocha...

Bar do Rocha, na estrada princial do Quitexe

Bar do Rocha! Quantas saudades ali foram afogadas, em copos de cerveja, nocais, cucas e depois n´golas??!!! Ou, para os menos apreciadores de álcool, com os sabores das dussóis e das missions!! Quantos nomentos de nostalgia ali se sentiram e mataram, a troco de uma conversa de amigos, recordando os bons momentos do "puto" e da família, dos amigos, das namoradas, das mulheres e dos filhos, se os havia! Todos partilhando emoções fraternas, como se fôssemos todos irmãos de sangue!
O Bar do Rocha era um dos locais de culto das noites quentes do Quitexe! Numa delas, um GE, já adiantado em vapores alcoólicos, provocou uma cena bem desagradável, ameaçando um militar a tiro e granada. Felizmente tudo se resolveu, sem consequências, controlada que foi a situação, com mais ou menos facilidade! Havia, felizmente, disciplina e respeito, entre as hostes militares - apesar de, ao tempo, se registarem muitos incidentes em outras guarnições e principalmente na metrópole. Era já o PREC!
Se houve coisa que no Quitexe se viveu sempre - e em todo o Batalhão de Cavalaria 8423 - foi o respeito institucional e pessoal, sem que tivessem de se invocar regulamentos para que a família militar se estimasse e fosse solidária!
Mas eu falava do Bar do Rocha, lembrando as petiscadelas com que por lá nos lambuzávamos, satisfazendo o estômago e matando a sede dos nossos lutos dos cheiros e tempêros das nossas cozinhas de família.
Apetecia-me agora ir ao Rocha beber uma cuca! Ou uma nocal!
- GE. Grupos Especiais. Unidades operacionais africanas. Beneficiavam de treino militar e estavam organizadas como grupos de combate, estacionados junto às companhias do Exército, sob ordens das quais serviam. No Quitexe, estavam os GE 217 e 223. Em Aldeia Viçosa, a 222; o 208 em Vista Alegre.
- ROCHA. Bar do Rocha. A fotografia do dia 28 de Abril, com o Pais e o Emanuel, foi tirada lá dentro.
- PUTO. Como em Angola se denominava o Portugal Metropolitano.

sábado, 16 de maio de 2009

Um susto, ou uma emboscada...

Mercado de café, em Carmona (Uíge). Clicar, para ampliar

Um dos nossos mais vulgares serviços eram feitos às fazendas, dando protecção aos seus movimentos de viaturas, nomeadamente em tempo de colheita e venda de café - no mercado de Carmona (como se vê na foto, tirada da net). Iam-se dezenas e dezenas de quilómetros a engolir o pó das picadas, sempre de arma tensa e olho vivo, para repetir a viagem no sentido inverso! E, depois, de novo repetindo. No mesmo dia!
Não era fácil! Eram muitos, muitos quilómetros num só dia, por picadas sempre inseguras e nas quais cada dúvida ou ruído aumentavam os nossos medos. Uma vez, serpenteava a coluna por um monte quando avariou um unimog. Foi um susto!!! Maior susto ainda porque um militar viu um homem, aparentemente armado, por detrás de um penhasco. Reagimos, foram tomadas todas as acções de circunstância e uma equipa do pelotão avançou, lesta e corajosa, para um imediato «golpe de mão», se assim posso dizer - a equipa do 1º. cabo Cordeiro. E galgou o monte à direita da coluna. Estes momentos são de muita inquietação e exigem serenidade. E coragem!!! Nada viu a equipa, que foi e voltou, connosco todos em ansioso alerta, controlando emoções e respirando apressados para o que seria o nosso baptismo de guerra. E lá continuámos a missão - interrompida por uns bons três quartos de hora de tensão. Passámos neste local, nesse dia, mais três vezes e, não se ouvisse o roncar dos motores dos unimogs, diria eu que olhávamos aqueles penhascos em silêncio sepulcral! De cortar à faca!! De olhos e sentidos apurados!!!
Soubemos mais tarde, por um suposto membro da FNLA (supostamente integrante desse alegado grupo), que nos tinham emboscado e se preparavam para atacar, quando avariou a viatura. A reacção imediata do nosso grupo terá evitado males maiores. O sítio era propício a uma verdadeira flagelação - a uma carnificina. Quase bastaria, na verdade, que nos atacassem à pedrada.
- CORDEIRO: José Manuel de Jesus Cordeiro, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural da região de Leiria.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

As «mulheres» e a Maria de Angola do Quitexe...

Os furriéis Miguel e Neto, ladeando Maria
de Angola, no Quitexe!
Mulheres é tema de sempre, onde estiver um homem. Ou dois, ou três!!! Eram motivo de enormes e infindáveis conversas e desejos, entre a gente que da Europa foi ao Quitexe fazer a tropa. As noites de luar da vila cavaleira eram invariavelmente «vestidas» da nudez que imaginávamos em cada fêmea que adivinhássemos nas fronteiras do nosso cio de machos latinos!
As noites tropicais, as nocais e cucas bebidas em exagero - uma noite foram 24!!!... - a sensualidade cor de ébano que se passeava na frente dos nossos olhos, o bombalear provocante das mulheres que passavam e saciavam nossos olhos de desejo, levaram a tropa a muitas histórias que aqui não se podem contar!
O ritmo dos batuques, as danças de gazela das mulheres negras de seios nus que espreitávamos nas sanzalas ou nas ruas mais cosmopolitas de Carmona, eram realidades que transportávamos para os nossos sonhos, eram lendas que efabulávamos em intermináveis noites que nos faziam arder de cio. E desejos!!!
A foto é uma «mentira». O Miguel e o Neto não estão a disputar a mesma mulher branca! Branca, ora vejam lá. O que parece até erótico, porventura pornográfico, quiçá sexual, dois jovens quase despidos a envolver uma mesma mulher, não passa de uma brincadeira de tropa. E eles, ao que parece, eram danados para a brincadeira!
A mulher do meio sou... eu!
- MIGUEL: Miguel Peres dos Santos, furriel páraquedista, em serviço na CCS do BCAV 8423. É de Setubal.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O glorioso PELREC da CCS do BCAV 8423

Cavaleiros do Quitexe, em sorridente pose de «guerra»,
preparados para mais uma "saída". Clique na foto, para a ampliar

O glorioso Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação (PELREC) do gloriosíssimo Batalhão de Cavalaria 8423, instalado na vila do Quitexe, norte de Angola. Tão diferente e tão plural, tão heterogéneo!!! Um pelotão de altos, baixos, magros e gordos, todos imensa e intensamente solidários. E vaidosos da sua competência militar!!! Eu assino por baixo!
Ora vejam lá quem eles eram, em cima, da esquerda para a direita, todos garbosos e muito corajosos: Cordeiro, Messejana, Pinto, Soares, António (?), Ezequiel, Marcos, Dionísio, Caixarias e Florindo (enfermeiro).
Em baixo, pela mesma ordem e também «armados até aos dentes», prontos para tudo: Vicente, Viegas, Francisco, Leal, Mendes (?, transmissões), Hipólito, Aurélio, Madaleno e Neto.
NOTA: O pelotão não está completo, saímos para mais um patrulhamento, e a foto é de 16 de Outubro de 1974. A pose sorridente tinha a ver com uma «boca» mandada pelo (furriel) Neto. Alguém nos pode confirmar as identidades?! Tenho dúvidas em duas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

E o Quitexe, onde é, onde fica?!

E Quitexe fica no mapa?! Onde? Onde fica?! É um buraco?! A pergunta cirandou-se de boca em boca, entre nós - os cavaleiros que iam da revolução lisboeta e se suavam em bica do calor africano. Era a pergunta mais feita no campo militar do Grafanil, à saída de Luanda, antes de Viana!
Era a nossa grande ansiedade: para onde vamos? O que nos espera?! Quem está lá, como vai ser?
Em Santa Margarida chegara-me um «cheiro»: íamos para o norte de Angola. E devorei tudo o que pude ler, para antecipar o conhecimento da então província ultramarina. Em Maquela do Zombo tinha estado o Zé Ramiro, meu vizinho. Por Quitexe passara o Zé Pires, também vizinho. Em Sanza Pombo estava o Higino da ti Efigénia, daqui também mas civil. E havia a já então lendária Nambuangongo. O Quibaxe, Piri, sei lá.

Só em Luanda soubemos que o nosso destino era o Quitexe. E assustei-me. Tinha visto umas fotografias trágicas, de mulheres violadas e assasinadas, crianças mortas! À catanada e a tiro. Outra imagem de terror era a de cabeças de negros espetadas em paus. Em 1961, ano 1 da era emancipalista dos naturais, no terreno! E aqui não entro em pormenores. Mas isso tudo nos martelava na cabeça!
Conversei com amigos civis, em Luanda - que do Quitexe me pouparam algumas coisas que saberiam. E lá fomos: Cacuaco, Ucua, Dange, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitoque, Quimassabi, o que lembro mais!!
E a cidade mais perto? Carmona! E o que me disse Casares, furriel miliciano que de alguma maneira substituí nos GE: que tivesse cuidado, coisas que agora não conto! Lá chegámos, numas dez horas de viagem, ou mais, com paragens que deu para encontrar, num bar de Quibala, o conterrâneo Zé Taipeiro, aqui meu vizinho, a 80 metros de casa! E o Quitexe, afinal, foi uma boa surpresa!

terça-feira, 12 de maio de 2009

O Mosteias que era casado e foi pai...

Viegas e Mosteias, furriéis do Quitexe, à
entrada do edifício dos quartos.


O Mosteias era um gajo do caraças! O Mosteias era um gajo bom!! O Mosteias era um tipo que casava o impulso com a razão, misturando-as e reagindo-as numa doce partilha de amizade e camaradagem. O Mosteias era um portento de força física, praticante de halteres improvisados e dono de imponente figura. Era o mais alto, o mais pesado, o mais calmo, o mais bonacheirão, o melhor de todos nós numa série de coisas. Sapador de infantaria, era o gajo das minas e armadilhas!!! Ele, o montijense Cândido Pires e o amarantino Farinhas! Um trio muito singular!
O Mosteias era único furriel miliciano casado de toda a CCS. O que lhe dava uma auréola muito especial, entre todos nós, quando falávamos pela noite dentro, olhando a lua avermelhada dos céus africanos e sentindo os cheiros de cio de Angola, contando e ouvindo histórias, entre um gole de cerveja, um trago de wisky, ou simplesmente a endeusar as nossas irreverências de juventude, delas fazendo lendas e maioridades!!! A quietude bonançosa das noites do Quitexe dava para tudo, embrulhando-nos de emoções! E falasse-se de saudades!! Aí, aí... então aí ficávamos todos a olhar e a medir as estrelas no céu angolano e a antecipar sonhos das próximas horas de sono! A sonhar não digo com quê!!!
Não consta que o Mosteias alguma vez tenha usado a sua instrução militar especializada, em qualquer picada ou trilho da zona cafeeira de Angola por onde «vagabundeávamos» em patrulhamentos e operações. E ainda bem!!!! Sinal de que não havia perigos!!!

Divertia-se e ansiava-se ele, no dia a dia, era com o sonho e a expectativa de receber da mulher grávida a notícia de que já era pai!!
Tivera uma curiosa história, a do seu casamento com Leonor, filha do patrão, que era despachante oficial em Lisboa. História que ele contava com com indisfarçável gozo e felicidade!!: «Olhe, amanhã vou casar-me com a sua filha. Se quiser ir, é na Conservatória tal....».
- «Ó Mosteias e foi mesmo assim?!!...», perguntávamos nós, sempre de sorriso afiado! Para sempre ouvirmos a mesma história, contada com felicidade que não se contava em quilómetros. «Ó Mosteias, já te viste com a criança no colo?!... », respingávamos-lhe nós, rapazes na irreverência dos nossos 21/22/23 anos, para o provocar, em sorriso de refinada malícia, sugerindo-lhe o cofiar dos anéis dos cabelos da criança, o tocar-lhe a pele macia, dar-lhe o biberon, mudar-lhe as fraldas.
O Mosteias olhávamos com supremo desdém, de sorriso cúmplice, como se não houvesse no mundo pessoa mais feliz que ele. Um dia alguém lhe leu um poema: «Pai, o teu Natal é longe de mim/A mãe pousa as mãos no ventre/E sinto-lhe saudades sem fim/Porque me sente/Filho de ti!!!....". Qualquer coisa parecida com isto.
«Ó pá, mariquices, pá...», balbuciou ele. E riu-se, riu-se, riu-se! E saiu de ao pé de nós!
Não sei porquê, mas sempre tive a ideia de foi chorar para o quarto.
Dias depois, era pai!! E veio a Lisboa conhecer a criança!
- MOSTEIAS: Luís João Ramalho Mosteias, furriel miliciano sapador de infantaria. Mora em Sines. O filho seguiu a carreira da actor.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Papélino do Quitexe, que era Agostinho, ou talvez não...

Furriéis Farinhas, Neto e Viegas. O Papélino
fazia que engraxava os meus sapatos

Chegou-me um delicioso e emotivo comentário sobre o Papélino, o Agostinho Papélino, engraxador oficial do Quitexe, corneteiro oficial do Quitexe! Ou mangueiro oficial do Quitexe?!! Ele corneteava os toques militares com uma magueira de jardim! E era o nosso mascote!! Era?!
Quem nos escreveu, assinando (digo eu) a primeira crónica inter-activa deste blogue, é Casal, ex-militar do Quitexe, que começa por frisar que«muita coisa haveria para contar sobre o Agostinho!». E diz ele:
«Sempre que falo de África menciono o seu nome. Viveu tempos muito dramáticos. Conheci-o quando o livrei de uma quase bárbara agressão, após ter conseguido comida no quartel. Levava-o comigo ao Topete e ainda vejo os seus olhos mirar o "prego". A carne era maior que o pão e não sabia bem por onde começar! O dono da casa ousou um dia fazer reticências e foi aí que estalou o verniz! Tudo se esclareceu e até ficámos amigos... ou quase! No dia seguinte, era chamado ao capitão, mercê da pressão exercida pelo então meu amigo ex-alferes Serpa. Foi o comandante quem, ao ouvir a conversa, não lhe atribuíu qualquer valor e acabou com o assunto ali mesmo. O mais importante é que o "enguia" continuava a ir ao Topete deliciar-se com a comida, acompanhada por uma "mission" de maçã. Durante um ano e quase todos os domingos me engraxava um par de sapatos que eu nunca calcei, mas que ele afirmava peremptoriamente estarem necessitados de cuidados. Eu nunca lhe disse nada, mas num dos seus raros momentos de distração constatei que usava pomada duma caixa...vazia!Dei-lhe uma caixa nova mas duvido que a tenha usado em meu proveito. Talvez tenha servido para cativar clientes na Companhia que me foi render. Durante um ano, o "enguia" esteve protegido mas o dia 26 de Abril de 1973 tinha chegado. Às seis da manhã, lá estava ele à minha espera para se despedir. Olhos no chão e um nó na garganta, igual ao que ainda hoje sinto quando falo dele. Oxalá seja hoje hoje um adulto realizado. - Casal»

NOTA CV: O Papélino era isso mesmo, não faria eu melhor a caricatura viva que lhe foi feita por Casal. Engraçado como tudo o que descreve se repetiu um ano depois e meses seguintes: comigo, com o Neto, o Farinhas (todos na foto). E outros «cavaleiros» do Quitexe. Até o prego no Topete e a Mission meia fresca - bebida de que francamente já não me lembrava! E o faz que engraxa mas não engraxa; até a oferta de uma caixa de graxa!
Dele, sempre me ficou uma dúvida: se ele não passava informações para o IN. Perguntei-lhe e sempre negou, mesmo quando o confrontei com uma situação concreta. Aparentemente, ele não se chamaria Agostinho, mas talvez Francisco Caiango, ou Augusto Cacongo! Ou outro nome qualquer! Era uma criança grande, muito esperto, mais que inteligente; sagaz, mais que o que dava a entender. Dele, recordo a última palavra, a 2 de Março de 1975: «Leva-me nos puto, esfurrié...».
Nem eu nem o Neto lhe respondemos. Passei-lhe eu a mão na carapinha e não disse uma palavra, dei-lhe 20 angolares! Fugiu com eles embrulhados na mão, a correr, e ficou atrás das plantas da messe de oficiais que ia ser abandonada, a ver-nos partir para Carmona.
Lá me procurou, no BC12, algum tempo depois!
- FARINHAS: Joaquim Augusto Loio Farinhas, furriel miliciano sapador, de Amarante. Esteve nos Estados Unidos e regressou.

domingo, 10 de maio de 2009

A Noite de Natal de 1974


O Quitexe, visto da capela. Clique, para ampliar a foto.

A foto é do Quitexe, vila onde estava a CCS do BCAV 8423, tirada a partir a capela, vendo-se parte das instalações militares.
Vê-se claramente o telhado do refeitório, a cobertura mais à direita - onde tanto se refeiçoou com as saudades da sopa e do arroz de galinha da mãe. Ou do bacalhau com todos, um peixe frito, uma rojoada.
A noite de Natal de 1974, estava eu de serviço (sargento de dia), foi das mais emocionantes de toda a comissão de 15 meses. Comeram-se rojões e bacalhau, refeiçoando juntos oficiais, sargentos e praças - precisamente no refeitório. O capitão Oliveira, que não era homem de muitas falas, falou ao pessoal, algo emocionado e em frase curta. A família dele - mulher, filha e neto - morava a poucos metros, certamente estava ao ouvir!
Eu estava de serviço e tinha «instruções» para relaxar alguns eventuais exageros. Sem flexibilizar a necessária a segurança. Assim aconteceu! Por volta da meia noite, passei - eu, com o Madaleno e o Marcos... - por todos os postos, levando cachaça, vinho, cerveja e wiskyes aos sentinelas. Nenhum deles dormiu nessa noite. Quiseram, mais ou menos ensonados, partilhá-la irmamente, dividindo as bebidas com bacalhau cru. Nenhum deles «abusou». A noite de saudades e de nascimento foi partilhada com amor e solidariedade!
- OLIVEIRA. António Martins Oliveira, capitão SGE, comandante da CCS. Tinha sido aluno da Escola Central de Sargentos, em Águeda, e tinha comigo e com o Neto uma relação menos boa! Julgo que por sermos de Águeda. Encontrei-o nos anos 80, em Aveiro, já como major, era o responsável pelo DRM (Distrito de Recrutamento Militar). Morava em Ovar.
- MADALENO: Francisco José Matos Madaleno, soldado atirador de cavalaria, da Covilhã.
- MARCOS. João Manuel Lopes Marcos, soldado atirador de cavalaria, do Pego (Abrantes).
Foto de José Oliveira, do BVAC 1917.

sábado, 9 de maio de 2009

O «ataque» à 3ª. BCAV em Santa Isabel

Viegas (CCS) e Carvalho (3ª. BCAV), furriéis
do BCAV 8423, no dia de Ano Novo, no Quitexe

S
anta Isabel era uma fazenda de café, entre o Quitexe e Aldeia Viçosa, onde estava aquartelada a 3ª. CCAV do BCAV 8423. O comandante era o capitão Fernandes e fui lá três, quatro vezes, em missões de reabastecimento e lá passei uma noite, de partida para uma operação de dois ou três dias.
Uma outra noite, lá por meados de Setembro de 1974 - eu não estava lá... - confraternizavam os militares, com mais uma cerveja, um gole de wiskye, um jogo de cartas, um aerograma que se lia ou escrevia para namoradas e famílias, uma mais acalorada discussão sobre o futebol ou a política que se instalava em Portugal, quando rebentou uma granada - ali mesmo, na boca da zona aquartelada. Estremeceram os homens, com o peito a rebentar de ansiedade. E tensão! Nunca tal tinha acontecido. E mais ainda quando, logo, logo depois... uma rajadada silvou na noite, gelando coragens e desblindando medos.
Tudo se agitou num ápice, o piquete, o oficial e o sargento de dia, a guarda de armas, granadas, morteiros em riste, aprontando-se todos para o combate!! O aquartelamento estava a ser atacado!
O Lino galgou o terreiro do café em passada larga, correndo com o Graciano em direcção a um unimog equipado com uma Breda. Conduzia o Lino - que era mecânico... - e instrumentou-se o Graciano para disparar para tudo o que bulisse à volta. "Ah gandulagem!...".
O efeito da rajada da Breda seria letal a quem lhes aparecesse pela frente! Ai não que não era.... As intenções eram de combate puro, correndo soldados, sargentos e oficiais para todas as posições de defesa. Em opoucos segundos!
Tudo serenou num repente, não se ouviram mais tiros nem granadas e foi-se a ver e a Breda, instalada no unimog que dava voltas aceleradas ao terreiro do café, guiado pelas mãos nervosas mas seguras do Lino, nunca disparou, porque o pente das munições estava ao contrário. E não houve mais tiros e medos na noite.
Afinal, a granada tinha sido arremessada de um dos postos de sentinela, por um soldado que, à passagem de animais selvagens, se deixou iludir pelo escuro e gritou, gritou de alarme e medo, angustiado na noite que crescia cheia de sombras. E a despoletou sobre o «inimigo» - que eram os animais. Tudo acabou num instante, nos instantes depois do pavor e tensão que se espalharam por Santa Isabel. O que se adivinhava como tragédia, recorda-se hoje com a ironia e caricatura possível!
- FERNANDES. José Paulo de Oliveira Fernandes, capitão miliciano de infantaria, comandante da 3ª. CCAV do BCAB 8423.
- CARVALHO. José Fernando Costa Carvalho, furrriel miliciano atirador de cavalaria, PSP aposentado, mora no Entroncamento.
- LINO. José Rodrigues Lino, furriel mecânico-auto, do Fundão.
- GRACIANO: Graciano Correia da Silva, furriel miliciano atirador de cavalaria, de Souto de Lamego.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os dois madeireiros mortos da Baixa do Mungage


Um dos dois madeireiros mortos da Baixa do Mungage.

Outubro de 1974, dia 16. Jogava eu as cartas, com o Pires do Montijo, o Miguel e o Velez. Era mais um fim de manhã cheia de sol e muito calor e, para mim, um dia de serviço, de piquete!! O Bento apareceu, meio esbaforido e com cara de apressado e apreensão. «Vai às Operações!!!...». Era sinal que havia «novidade».
Antecipando a história: um grupo de madeireiros tinha sido atacado na Baixa do Mungage. Supostamente havia mortos!!! Havia que ir lá... Foi o PELREC, com toda a gente incomodada com a hora: estava-se por ali, perto da cozinha, já com o cheiro do arroz e dos bifes grelhados, molhados de piripiri!!! Parámos algures, já na picada vermelha, com o verde da mata do Mungage na frente. «Meus amigos, pode haver merda...».
Avançámos! Os unimogs rodavam no pó quente da picada, nós de arma aperrada e lenços a proteger-nos o nariz e a boca e óculos escuros contra a poeiraça!! Estreitava a picada, de capim espigado de maduro, com os nossos olhos postos e tudo o que mexesse, a querer ver o que nunca queríamos ver! Subíamos um pequeno outeiro rodeado de floresta e soaram dois tiros!! Três tiros!!!
Reagiram os homens do PELREC, saltou o cabo Vicente, ágil, determinado, em posição de defesa!! Saltaram o Soares e o Madaleno... Eu apontei o dilagrama!! Para nenhures!!! As viaturas não pararam e o silêncio ficou para trás. Silêncio de medo! Apontou-me o Madaleno: «Olhe, furriel...».
O silêncio manteve-se, cortava-se à faca!!! A segurança das viaturas esperou-nos e continuámos a missão, até ao ponto identificado na ordem de operação como local provável do ataque. Tal e qual, abriu-se a floresta e cheirava a queimado. «Olhe, furriel...», reapontou o Madaleno. E o Francisco, o Leal, o Cordeiro, tudo homens de coragem, soldados sem medo!!!
Olhámos o camião que ardia, lá para a frente; era dele e do capim o cheiro que nos chegava. Senti sair de mim, naquele momento, o muito que tinha aprendido em Lamego. no CIOE: provar que temos o direito de ter força, de não ter medo!
Avançámos com a prudência aconselhada, o chão e os trilhos, a picada cheia dos solavancos dos rodados dos camiões, tudo isso poderia estar armadilhado. E de onde vinham os tiros?!
Avançámos mais uns metros, rastejando até que ficámos em posição de ver o que nos esperava: dois mortos, dois madeireiros brancos!!! O camião ainda ardia e ardiam peças de vestuário. O cheiro que já atrás nos chegava era também de odor humano que ardia!
Carregámo-los em «macas» de lençol, sempre em silêncio!!! O sol a pique da terra de Angola regáva-nos de suor. Suores frios!!! Até ao Quitexe!!!
- VELEZ. Vitor Manuel C. Gregório Velez, furriel miliciano atirador de cavalaria, de Lisboa.
- PIRES. Cândido Eduardo Lopes Pires, furriel miliciano sapador, do Montijo, agora em Niza.
- MIGUEL. Miguel Peres dos Santos, furriel miliciano pára-quedista, de Torres Novas.
- MADALENO: Francico José Matos Madaleno, soldado atirador.
- SOARES. Ferrnando Manuel Soares, 1º. cabo atirador de cavalaria, de Lisboa.
- FRANCISCO. Vitor José Ferreira Francisco, soldado atirador de cavalaria, da Marinha Grande.
- LEAL. Manuel Leal da Silva, soldado atirador de cavalaria, do Pombal.
- CORDEIRO: José Manuel de Jesus Cordeiro, 1º. cabo atirador de cavalaria, da zona de Leiria.
Estes e todos os outros bravos «pelrec´s» foram gente maior neste dia 16 de Outubro de 1974!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O desejo de voltar ao Quitexe...

Estrada que liga a avenida à rua principal do Quitexe, em foto tirada
da frente da secretaria da CCS. Alguém se esqueceu do
que era ali esta casa à esquerda, meia avermelhada?
Ali comi eu camarão, pela primeira vez na minha vida!

Há ecos que nos chegam e comovem, sobre estas histórias e estórias que aqui se vão contando, do tempo em que, pouco mais que teenaggers, nos amadurecemos em terras africanas de Angola.

Não as dividiremos, por razões de natural constrangimento, mas quero dizer que é realmente emocionante o número de contactos que se tem estabelecido a partir desta tribuna global. Até de gente que foi de outras «guerras». De outros batalhões!
Um, de qualquer modo, vou falá-lo: o desejo de voltar ao Quitexe. Diz o (ex-furriel de transmissões) José Pires, de Bragança: «Vai pensando para daqui a algum tempo organizarmos uma viagem áquelas paragens e assim recordaremos melhor aqueles tempos (...) .Temos mesmo que ir lá. Espero que haja muita gente a aderir».
A ideia já eu também a comungo há alguns anos. Vou este, vou no próximo, a verdade é que ainda não fui e quero ir. O Neto pensa o mesmo, ainda ontem falámos nisso - ao almoço que nos fez desfiar memórias e saudades do nosso tempo angolano. O mesmo pensa o Cruz, sei eu; e aposto que o Machado e o Dias não se vão pôr de fora. E o Monteiro!! E outros, outros, outros... Quem sabe: um dia destes estaremos pelo Quitexe, sentindo o calor de África, os cheiros da terra e dos frutos, tudo aquilo que ainda nos parece mágico!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O Queijo e o feijão furado!!!

Refeitório da CCS do BCAV 8423

O refeitório da CCS do BCAV 8423 era o altar de todas as refeições diárias dos praças da CCS e dos pelotões que, mês a mês, se revezavam no complemento de segurança da unidade. Não houve dia, naquelas sagradas mesas de comunhão - mesas do pão e do vinho da nossa alimentação... - em que não se confessasse alguma saudade de alguém, ou de algum prato mais saboroso, que as nossas mães fariam nas nossas pobres cozinhas de família de então... e por lá não saboreávamos. No Quitexe!
Um dos auxiliares dos cozinheiros, os mestres de sabores e quantidades que enchiamos nossos estômagos jovens de muita fome, chamava-se Graciano Queijo. Era o Queijo, o queijo para aqui e o queijo para acolá..., substantivo próprio, substantivo comum..., que indistintamente usávamos para lhe desenvergonhar o desgosto do nome. Transmontano, sossegado e humilde, era pacientemente cumpridor dos pratos que o Dias, todos os dias, ementava... segundo as NEP´s.
Um dia, eu de «castigo» feito fiscal da alimentação, obriguei aqueles bons soldados e cabos cozinheiros a virar um enorme panelão de feijão furado para a xitaca - onde se misturavam patos, galinhas e porcos que nos iriam saciar fomes e apetites. Que não, que não podia ser... fôra o capitão quem mandara. Isso sabia eu, mas havia essa tal coisa das NEP´s, que o mesmo capitão sempre nos atirava à cara, quando nos queria tramar. Virar o feijão para fora, isso pára aí, assim entendiam os cozinheiros...
Virou-se mesmo, aquela malta ir comer feijão furado é que nem pensar, e fiquei nesse dia com a ideia que subi ao altar da admiração dos praças, nossos irmãos. Pois se eu tinha batido o pé, em favor deles! Ainda hoje me sinto orgulhoso, por isso!
- DIAS. Francisco José Brogueira Dias, furriel miliciano de alimentação, natural e residente no Porto, bancário.
- QUEIJO. Graciano da Purificação Queijo, clarim, a prestar serviço na cozinha.
- NEP. Normas de Execução Permanente, a lei do dia-a-dia de qualquer unidade militar.
A foto é de José Oliveira (César).

terça-feira, 5 de maio de 2009

A boa vida do Quitexe...

Clique na foto, para a ampliar
Angola e o Quitexe, depois Carmona, foram sítios de alguma tensão e momentos vizinhos do drama e de lágrimas de dor, é verdade, mas também de muitas alegrias e descontrações para quem, como nós, por lá se deu a conhecer e conheceu mundos e gentes novas. Não foi, não se julge ou conclua, o vale de lágrimas e tragédias que quantas vezes por aí ouvimos falar, em exagero mais ou menos púdico. Mesmo nós exageraremos algo, certamente, em momentos mais emotivos.
Por lá se semearam, cultivaram e multiplicaram muitos afectos e camaradagens, que ainda hoje se continuam, 35 anos depois. E que, de resto, a vida tem rejuvenescido. O dia-a-dia era cheio de saudades, é certo, da nossa gente e dos cheiros das nossas terras, mas tinha também muitos e repetidos momentos de franca camaradagem e confraternização. Alegria, diria mesmo... felicidade!
A foto mostra um deles, no bar de sargentos do Quitexe. À esquerda, de boina caída, está o Lopes. Eu, a nascer de bigode, estou a seguir. Depois, com a garrafa na mão, o Ribeiro, da 3ª. CCAV. De costas, o 1º. sargento Luzia. Atrás, tapado pelo dedo do Bento, está o Lages - do bar. E o Flora, de boca aberta (também da 3ª. CCAV). O civil, de branco, não me recordo do nome. Depois, o 1º. sargento Aires (mecânico).
De bigode, à minha frente, o Rocha (de Gaia). Ao lado, o Bento (Barreiro). Acocorado, de bigode e boina, está o Carvalho, do Entroncamento (da 3ª. CCAV). Depois, outro Lopes, o de Barcelos (3ª. CCAV) e o Capitão, que era furriel e do Entroncamento (também da 3ª. CAV). Em baixo, de bigode e copo, o furriel Reina (também da 3ª. CCAV).
A foto é de meados de Dezembro de 1974.
- LOPES: António Maria Verdelho da Silva Lopes, furriel enfermeiro, de Vendas Novas. É tesoureiro de Finanças nesta cidade.
- RIBEIRO. Delmiro da Silva Ribeiro, furriel atirador de cavalaria, técnico de comunicações em Livração.

- FLORA. António Pires Flora, furriel atirador de cavalaria, quadro da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.
- ROCHA: Nelson dos Remédios da Silva Rocha, furriel de transmissões, vendedor, de Vila Nova de Gaia.
- BENTO. Francisco Manuel Gonçalves Bento, furriel de informações e operações, do Barreiro. Suponho que mora na zona de Castelo Branco.
- CARVALHO. José Fernando da Costa Carvalho, furriel atirador de cavalaria, agente da PSP em Santarém, aposentado.
- LOPES. José Avelino Grenha Lopes, furriel atirador de cavalaria, natural de Barcelo, mora em Lisboa.
- CAPITÃO. Luís Ribeiro Capitão, furriel atirador de cavalaria. do Entroncamento, funcionário da REFER, aposentado.
- REINA. Armindo Henrique Reina, furriel atirador de cavalaria, suponho que da zona de Leira.
- LAGES: Carlos Alberto Aguiar Lages, soldado atirador de cavalaria, de Lisboa, em serviço no bar de sargentos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O sô Cabrita...

António Cabrita e Viegas, numa aldeia dos arredores
do Quitexe. Repare-se na curiosidade de eu estar com a farda nº. 1. Era raro.
Sempre preferia o camuflado!

O Cabrita era o soldado básico da CCS do BCAV 8423. O Cabrita era algarvio e pescador, dos arredores de Portimão, em sítio no caminho para o Alvor. O Cabrita era um tipo porreiro, humilde, prestável, sempre disponível para dizer sim a qualquer pedido.
O Cabrita era rapaz de sorriso solto, que lhe alargava a boca num trejeito de timidez quase adolescente; era bem disposto, ainda que introvertido. Muito introvertido! Por ser soldado básico, não entrava nas escalas de serviço, mas estava sempre de serviço. Precisava-se de alguma coisa, pois pedia-se ao Cabrita. Era preciso dar uma arranjadela nos quartos, o Cabrita ajudava. Não nos apetecia ir levar a roupa à lavadeira, pois lá ia o sô Cabrita! Era preciso limpar a arma, a G3, pois o Cabrita lá se punha de paciências para panos, óleos e escopetas.
O Cabrita não ia em patrulhamentos e operações, mas nós sabíamos que ele pensava sempre em nós, será que rezava?!, quando nos via sair para as picadas vermelhas da terra angolana.
O sô Cabrita, a um domingo de manhã, saía eu de serviço de sargento da guarda, estava à porta do meu quarto. «Então, Cabrita, há novidade?!...», perguntei eu - que me preparava para ir dormir até horas de almoço!
Havia! O Cabrita tinha uma namorada, rapariga de limpeza no Hotel Alvor - onde MPLA, FNLA e UNITA assinaram o primeiro acordo. "E então, qual é a novidade?". Pois!!! Ele queria dizer-lhe que gostava dela, etc. e tal. «Diga-lhe, homem!!!...», sugeri-lhe eu, meio a rir! O remédio, afinal, estava para cá de Roma!
Pois, mas havia um pormenor, um pormenorzito ali a encalacrar a coisa: é que o bom do Cabrita não tinha a 4ª. classe, nem sabia escrever. «Su sô Viegas me escrevesse o aerograma!...», sugeriu-me ele, envergonhando-se e corando, escondido num sorriso que convencia um morto.
«Pois, tá bem,... mas tem de esperar um bocadinho. Vou tomar banho, 20 minutos...!», disse-lhe eu, ainda não eram 9 horas da manhã.
Estava eu no chuveiro, limpando as lamas de suor que a noite de serviço me chapara no corpo, quando chegou o Chico Neto. «Ó pá, tá ali o Cabrita com um prego no pão e uma Dussol, diz que é para ti!...».
«Para mim?!», interroguei-me. Eu não tinha pedido nada. E então não é que era?! Sabendo o Cabrita como eu gostava daquele manjar matinal e estando a sair de serviço, entendeu ele oferecer-me o mata-bicho. Acabei por aceitar e, por essa manhã fora, escrevi-lhe a primeira declaração de amor à namorada, toda cheia de flores, amêndoas e nove-horas. Provavelmente a mais bonita declaração de amor do mundo!!! A de um soldado entrincheirado no sonho de conquistar a sua mulher.
Hoje, a namorada do Alvor é a sua mulher e, quando me conheceu, em 1995, fez questão de perguntar se eu é que era o furriel Viegas, se era eu quem escrevia os aerogramas que ela tão ansiosamente aguardava duas, três vezes por semana!
O Cabrita frequentou depois as aulas regimentais, ainda no Quitexe, e tirou a 4ª. classe. Hoje é proprietário (patrão) do barco de pesca «Dulce Helena», que se faz ao mar a partir do porto de Cascais. Onde ele mora, com a muher e filho - que é marinheiro.
- CABRITA: António Santana Cabrita, soldado básico, algarvio de Portimão. No primeiro encontro de antigos militares da CCS, na Estalagem da Pateira, em Fermentelos (Águeda), 1995, foi ele quem, em nome de todos os participantes, entregou a lembrança ao então general Almeida e Brito. Que era o tenente-coronel Carlos José Saraiva de Lima Almeida e Brito que nos comandou em Angola.
- MATA-BICHO. Regonalismo, que mais não era que o pequeno almoço em terras do Quitexe.
- DUSSOL: Sumo angolano, identico à Sumol de Portugal.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

||| O 1º. cabo Soares

Viegas na porta da capela do Quitexe. Muitas
vezes ali foi procurada a tranquilidade
que o dia-a-dia militar exigia
A capela do Quitexe era (e é) templo pequenino, local de muitas orações e de sementeira e comunhão de fé. Foi também, como já aqui foi dito, espaço de refúgio a quem, no princípio das acções da UPA, fugia de males maiores. As placas na frontaria, mostram nomes de vítimas desses dias de dor e medo.
O dia desta foto, da qual não tenho data apontada, mas é de aí por Outubro de 1974, é o de uma surpresa minha: encontrar na capela, ajoelhado e muito concentrado, o Soares - provavelmente o elemento mais "rebelde" do PELREC, permanentemente inquieto e revoltado. Ia a entrar, com o Neto, e recuámos. Por momentos, ficámos a olhá-lo, a ouvir o seu silêncio, arrepiados e interrogados!
Esse dia, tinha sido o de mais um patrulhamento e protecção a um fazendeiro, de quem se diziam cobras e lagartos. Protecções que eram sempre viagens muito temidas, regadas de suor e ensopadas do pó vermelho das picadas e de grande violência física - 80 e tal quilómetros para lá e 80 para cá, mais os 40 e 40 de ir e vir de Carmona; outros 80 mais 80 para ir à fazenda, sempre em acção de protecção ao fazendeiro, que ia à capital vender o seu café e fazer reabastecimentos. Tratar da sua vida.
Já na tarde, na fazenda e na volta, mandou negar água aos soldados, estava eu e o Neto com ele, a beber cerveja que nos abriu, fresca, a soltar-se-nos na garganta de sede. O Soares gritava revoltado, em coro com oa nossos homens. Tínhamos todos comido o pó e sofríamos o cansaço das viagens feitas de perigos. Mais de 400 quilómetros num dia, em unimog´s. E amargávamos o débito de insegurança que se sentia, sempre que galgávamos picadas ou trilhos, espreitados dos cumes e dos encobertos do capim, para um qualquer destino que poderia não ter regresso. E o fazendeiro mandou recusar-lhes água. A nós, furriéis, dava cerveja e oferecia wisky.
Eu e o Neto, não bebemos mais ("filho da p...", pensámos nós, do fazendeiro) e saímos a correr, tentando controlar a revolta dos homens - que já tinham saltado uma cerca e se dessedentavam nas mangueiras de rega.
«Eu ia matá-lo!!!!...», disse o Soares, à saída da capela, quando nos viu, com olhos de raiva. Falava do fazendeiro e o seu ar era ao mesmo tempo constrangido e melancólico, a morder os lábios. Virou-nos as costas, olhando para o lado da pista e ouvimo-lo dizer. «Vocês não me deixaram ir para a cadeia!!!...».
- SOARES. Fernando Manuel Soares, 1º. cabo atirador de cavalaria, natural de Lisboa.
- GENA. Gena Guedes do Quitexe, comentadora da postagem do dia 23 de Abril, "A capela, a missa e a missão do Quitexe». Pode contactar-me pelo endereço c.viegas@mail.telepac.pt? Obrigado.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Manhãs de Outubro na Árvore Vaidosa...

Pose fotográfica, a 15 quilómetros da Árvore Vaidosa
O Pelotão de Reconhecimento, Serviço e Informação - que por lá baptizávamos e popularizávamos como PELREC, em sigla abreviada... - era o único pelotão operacional da CCS, todos os meses «casado» de serviços externos com um outro, que vinha em destacamento para o Quitexe.
Isto, na prática, queria dizer que duas ou três vezes por semana tínhamos patrulhamentos na zona, ou operações (numa dimensão regional e envolvendo outras companhias e batalhões). As missões eram religiosamente transmitidas pelo capitão Falcão, horas antes, e lá seguíamos nós, pelos ontens da madrugada mais próximos da saída, acordar soldados e cabos, para «preparar e arrancar». Aos modos «ranger´s», tudo tinha de ser feito em três minutos: acordar, vestir, equipar e estar em cima dos unimogs, já com a ração de combate. E a verdade é que pouco tempo depois, os bravos cavaleiros do PELREC estavam uns ases nessa rapidez. E tinham vaidade nisso.
A 17 de Outubro de 1974, a missão era para os lados do Destacamento de Luísa Maria e lá pernoitámos. Rezava a lenda que a mata ao fundo, chamada de Arvore Vaidosa, seria local de um acampamento da FNLA. Que até teria um subterrâneo. Se assim era, ou não, nunca o confirmámos. O mais perto que estivemos foi já em vésperas de 1975 e apenas encontrámos rastos do que teria sido uma pequena aldeia, já abandonada.
Este dia tem uma razão especial para aqui ser chamado. O Neves, dos lados de Sintra, era soldado do PELREC e, por sofrer de epilepsia, ficava sempre de reserva no quartel, em serviços internos. Nunca saía! Na prática, sendo ele atirador de cavalaria, como era, carregava o luto do «gozo» e brincadeiras dos companheiros do pelotão, que o constrangiam com a sua alegada inépcia militar. «Não vales nada, ó Neves... Nem para dar um tiro!», arrimavam-lhe eles, descuidando-se do respeito que ele lhes merecia. Nem era por mal, era por irreverência.
O António cansou-se de querer ir e foi neste dia. Deslumbrou-se com o cheiro da mata e dos bananais, de olhar os cafezais enormes, enormes de quilómetros, de entrar nas fazendas e ver os corpos de ébano das mulheres a bombalearem-se nos terreiros. De olhar e rir-se em gagalhadas felizes, com o saltar dos macacos de árvore em árvores, em gritos de cio!
Quis voltar mais vezes, voltar sempre!!! Mas não voltou mais! Uns dias depois, vítima da epilepsia que o ralava, disparou involuntariamente uma rajada na caserna e teve de ser observado por essa causa! Chorou sei lá quantas vezes por não mais ter ido!
- CAPITÃO FALCÃO: José Paulo Montenegro Mendonça Falcão, capitão e oficial de operações, de Coimbra. Encontrei-o há uns dez anos, já tenente coronel.
- NEVES: José Coutinho das Neves, soldado atirador do PELREC. Era da zona de Sintra.

terça-feira, 28 de abril de 2009

As cucas, as nocais e os pratinhos de camarão...

1º.s Cabos Pais e Emanuel, com o furriel Viegas
ao meio, no bar do Rocha, no Quitexe, em 1974

Angola é terra de calor. Muito calor!! E sede!! E cerveja!! As Cucas, as Nocais, mais tarde as N´Golas, - esquecia-me das Ekas... - eram as dessedentadoras de serviço, nas tardes e noites fora da nossa farta sede! Uma das primeiras coisas estranhas - aqui, pelo lado mais agradável!... - da nossa chegada a Luanda foi estarmos nos bares e esplanadas, pedirmos cerveja e trazerem um pratinho de camarão. Isso não aconteceu comigo, que nos primeiros dias de Angola, em Luanda, andei em visitas de família, e não fui cliente da cerveja em estabelecimentos hoteleiros. E nem sequer gostei muito da primeira que bebi!
A verdade é que toda a gente falava nisso, ampliando o gosto e o prazer da mariscada saciando-se consoante a largueza da carteira. O Pires, o de Bragança, veio agora lembrar-se a sua primeira ida à esplanada Amazonas, na baixa de Luanda, e de pedir umas canecas de cerveja, a que o empregado retorquiu, perguntando se não queriria "canhângulos"?
Canhângulos?! Pois que «sim, senhora, sejam lá canhângulos, se forem canecas como as daquela mesa...», respondeu ele, apontando para o lado. E lá veio um pratinho de camarão. «Ficámos nós estupefactos, perguntando-nos uns aos outros se o camarão seria oferecido como em Portugal se davam os tremoços?!», recorda o Pires, dando este facto como «sinal evidente da fartura que por lá havia». Em Angola!
O Quitexe, já aqui contei, tinha bastantes bares e restaurantes - muito famoso, o Rocha, entre outros, onde os militares passavam horas na morte do seu tempo, debicando petiscos e muitas vezes «enxarcando-se» de cerveja!!
Os da foto, comigo ao meio (repare-se que estava de um princípio de bigodaça!...), são o Pais e o Emanuel - numa qualquer conversa sobre a actualidade de então, vá lá agora saber-se do quê. E lá estão as Cucas e os camarões! Um monte de cascas de camarões!!! Reparo melhor e vejo que são Nocais, uma das outras cervejas de Angola! Por aqui também se vê por que a tropa deixou tantas saudades a tanta gente!

- CANHÂNGULOS. Canecas de cerveja, sempre com mais de meio litro. Pedir um canhângulo, era sinal de força e de ser... homem! Beber dois ou três, quatro ou cinco, era para o que... imaginam!
- PAIS. António Correia Lourenço Pais, 1º. cabo rádio-montador. Era de e vive em Viseu.
- EMANUEL. Emanuel Miranda dos Santos, 1º. cabo de transmissões (cripto), da Gafanha da Nazaré, perto de Aveiro. Vive nos Estados Unidos.

Clique na foto, para ampliar.