
Carregámo-los em «macas» de lençol, sempre em silêncio!!! O sol a pique da terra de Angola regáva-nos de suor. Suores frios!!! Até ao Quitexe!!!
BATALHÃO DE CAVALARIA 8423. Os Cavaleiros do Norte!!! Um espaço para informalmente falar de pessoas e estórias de um tempo em que se fez história. Aqui contando, de forma avulsa, algumas histórias de grupo de militares que foi a Angola fazer Abril e semear solidariedade e companheirismo! A partir do Quitexe, por Zalala, Aldeia Viçosa, Santa Isabel, Vista Alegre, Ponte do Dange e Songo! E outras terras do Uíge angolano, pátria de que todos ficámos apaixonados!

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Jardim do Quitexe, na frente da Administração
Entrada do Quitexe, via Aldeia Viçosa - de quem vai de Luanda para Carmona (Uíge). A nossa primeira visão sobre a vila, quando lá chegámos, a 6 de Junho de 1974, terá sido muito parecida com esta. Foi um consolo: as imagens que nos falavam, sobre os sítios de guerra para onde iríamos, eram as de «buracos» irrespiráveis, onde os cheiros eram de sangue e pólvora e o dia-a-dia de dramas e medos de explosões e ataques.
Angola foi um tempo e um chão de perfumes e emoções novas, para tantos jovens (como eu) que deixaram o calor e o afecto das suas casas e famílias, dos amigos e paixões da cá, para voarem ao encontro de um destino que nos estava marcado, desde anos para trás. Mas desconhecido!
Angola foi tempo e espaço de ganho de novas e profundas amizades, que perduram no tempo, até 35 anos depois!, noivadas e casadas com o futuro que agora conhecemos e vivemos! E nada melhor que uma amizade sólida e solidária, que não pergunta porquê quando se tem de dar e afirmar em actos.
O Cruz, o furriel Cruz, é uma dessas singulares e sólidas amizades que a tropa em Angola «pariu» para o futuro de hoje. Mais velho um ano, era o nosso «mais velho». Vivido na capital Lisboa, sabia e tinha histórias que eu não poderia ter - ido de uma aldeia, ainda que povoação litoral (Ois da Ribeira, perto de Águeda). Histórias que partilhávamos em longas e bonacheiras conversas das tardes e noites quitexianas, depois carmonianas.
Alguma razão, de intimidades e afectos, nos levou a gozar as férias juntos - em Abril de 1975. Corremos Angola, aos abraços de familiares e amigos, por Luanda, Nova Lisboa, Benguela, Lobito, Alto Hama, Silva Porto, Gabela!
Lembro-te Cruz, o quando tomando banho no Hotel Bimbe, de minha familiar Cecília, notaste o ferimento que eu tinha na coxa direita. O teu susto preocupado, a querer saber o que tinha sido. Um ferimento de bala, a noite de 23 para 24 de Agosto anterior. E como te confortaste quando te disse que tinha sido agarrado o atirador - obra da audácia permanente e coragem sólida e sempre solidária do (alferes) Garcia!
Que esteve ele (o atirador) detido o Posto 5, que o cabo Florindo (enfermeiro do Cartaxo) mal se vira para arrancar a bala da coxa, comigo deitado na sombra de um imbondeiro imenso, na Baixa do Mungage, por imperícia provocadas pelos nervos. De como eu a tirei, eu mesminho, quando a carne quente já desmaiava de dor!
Aqui te deixo, Cruz, recordando este episódio, a graça de te ter como amigo!
- Furriel Cruz. António José Dias Cruz, furriel miliciano de rádio-transmissões. Natural de Cardigos (Mação), mas ao tempo radicado em Lisboa, como hoje.
- Cabo Florindo. José Manuel Nunes Florindo, 1º. cabo enfermeiro. Natural do Cartaxo, era pegador de touros.

O hospital civil de Carmona (em cima) e alferes Garcia e furriel Viegas, no dia 10 de Outubro
Rua transversal da estrada Luanda-Carmona, em foto de 2005. Ao fundo, vê-se o edifício onde, de Junho de 1974 a Janeiro de 1975, funcionaram a secretaria e o comando da CCS. O comandante era o capitão António Martins de Oliveira. O tenente José Elói Borges da Cunha Mora era o segundo-comandante.
A residência dos furriéis da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Por ali viveram sete meses, entre outros, os furriéis Neto (de Águeda, como eu), J. Pires (Bragança), C. Pires (Montijo), Mosteias (Lisboa), Rocha (Gaia), Lopes (Vendas Novas), Farinhas (Amarante), Morais (Niza) - e os de outras companhias que pelo Quitexe passavam períodos de serviço.
Foto na avenida principal do Quitexe. Os furrieis
Avenida principal do Quitexe. A casa cor de laranja, à esquerda, era do Gabinete de Operações e onde estavam instalados o comando e, nas traseiras, a parada, oficinas e parque de estacionamento, camaratas e cozinha e refeitório. Como se vê, tinha (e tem) duas faixas de rodagem, separadas por um espaço ajardinado!
Avenida principal do Quitexe. O edifício cor de rosa era o da messe de oficiais da CCS do Batalhão de Cavalaria 8423. Logo à direita, era um edifício residencial de alguns furriéis milicianos, onde vivi de de Junho de 1974 a 2 de Março de 1975. Mais ao fundo, a casa da direita era o depósito de géneros e a messe e bar de sargentos. Quantos dias e noites ali, família e amigos e matámos saudades das nossas terras e sentimos (os operacionais) as ansiedades das operações militares que nos cabiam. 
O dia 29 de Maio de 1974 foi de chuva intensa, em Lisboa! E de grande ansiedade. No aeroporto, muitos de nós se estreavam em viagens de avião. E que estreia!! Para a guerra, quando Abril tinha acontecido mês e pouco antes e toda a gente pensava (e dizia) que nem mais um soldado iria para o ultramar. Mas fomos!! Era uma quinta-feira e, depois de uma falsa partida de dois dias antes, lá voámos nós no avião dos Transportes Aéreos Militares - os TAM.
A minha adolescência e juventude foram fermentadas pelo estigma da guerra. Era certo, fossemos nós minimamente saudáveis, que não escaparíamos à guerra do ultramar. Na Guiné, em Angola, Moçambique... E havia, ainda, Cabo Verde, Guiné e Timor!